31 de dezembro de 2003

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2003
Foi o ano de todos os sustos. O que todos sabíamos e ninguém falava começou a vir ao de cima. Mexeu-se no lodo e começámos todos a dar às pernas, aflitos, nas água da terra-mãe. Falar dói mais do que calar. Mudar dói mais do que ficar quieto (ou assim parece).
Muitos de nós sentimos a necessidade de controlo que se apoderou dos portugueses: é preciso controlar o défice, as baixas fraudulentas, a fuga aos impostos, o desafio à lei. Ou simplesmente à forma menos ortodoxa de trabalhar, no caso dos empregadores mais stressados...
Foi o ano em que foi necessário partir. As coisas instaladas. A Função Pública, ou pelo menos os sectores mais instalados dela, não voltará/ão a ser o reduto de malandros improdutivos que era pelo menos há quase 30 anos. Nunca mais (ou pelo menos nos tempos mais próximos) se poderá dizer: "entrei para o quadro já não preciso de trabalhar". Ou pelo menos assim o julga o piedoso Bagão Félix (ou nós julgamos que ele julga, que no que toca a pessoas com as costas quentes, seja da Igreja Católica, seja de outro lóbi qualquer, nunca se sabe onde acaba a verdade e começa a conveniência).
Este foi o ano do boom e morte de muitos blogues. O Prazer_Inculto nasceu a 1 de Março, e ainda por cá anda (pelo menos por mais uns tempos). Como podem ver pelo canto superior esquerdo, recebeu até hoje, mais de 30.000 visitas. Não é muito, comparado com os blogues obscenos ou com os políticos. Mas esse nunca foi o objectivo. Quem vier por bem continuará a ser bem-vindo. E aos mais fiéis, envio o abraço de alguém que se tem sentido contente por poder partilhar por um meio muito diferente dos livros as suas ideias e delas ter recebido feedback e novos contributos.
Pessoalmente não tenho grandes expectativas para o ano que se avizinha. Talvez seja de hoje estar um dia de chuva e de ter lido os jornais. Gostaria de ver o país animar-se, usar a sua imaginação para sair do estado depressivo em que caiu (e foi empurrado, igualmente).
Gostava que 2004 fosse o ano em a RTP deixasse de ser pimba, o Bigbrother fosse esquecido e a Sic Radical voltasse a transmitir OS MARRETAS (de todos, este parece ser o pedido mais provável...).
No fundo, o que eu queria mesmo era que Portugal olhasse para si próprio e distinguisse o que vale a pena do que não passa de lixo. Mas isso não é um trabalho para um ano, imagino. Talvez para um século.
Bom Ano e espero que cada um de nós consiga chegar ao fim sentindo que se tornou uma melhor pessoa.
Até 2004

28 de dezembro de 2003

E-MAILS
Na minha caixa de correio, dois e-mails de alunos meus. Separados por12 anos de distância. Os dois a lembrarem com alegria os dias que partilhámos entre aprendizagens. E deste lado, o mesmo sentimento contente.
Uma amiga minha, já desaparecida, afirmava que "no fim do ano, o professor fica sempre com as mãos vazias". Tinha razão, os professores sucedem-se e muitos são esquecidos e esquecem as muitas caras com que se cruzam. Mas às vezes, algumas vezes, somos confrontados com a memória de termos tocado o coração ou a inteligência de alguém. E nesse instante, as nossas mãos - abertas - enchem-se de novo.
:)

27 de dezembro de 2003

GOING HOME
Amanhã tenho de me meter à estrada para regressar a Lisboa... A ver se não me esqueço de terminar o testamento esta noite...
BREAKING NEWS
A Tvi e o seu mais do que esforçado telejornal descobriram uma prisão portuguesa que tem uma Ala Livre de Drogas. Pudemos ver como rapaziada jovem e já sem carros para assaltar se entretinha a cantar e fazer tapetes. Isto dá-nos duas esperanças: a) existem espaços prisionais onde trabalham guardas que não se preocupam a arredondar os finais de mês. b) Novos talentos da indústria têxtil e do Mundo da Canção poderão surgir em breve (2 ou 3 anos, com bom comportamento ou se o Papa não bater as botas e lhe apetecer vir rezar à nossa senhora de fátima...).
Nem tudo está perdido.

26 de dezembro de 2003

O SOM DA BARRIGA A GEMER
Muitos portugueses estão neste momento com medo de ficar a sós com os seus estômagos e intestinos. Receiam ouvir-lhes os gemidos e os apelos ao fim da ingestão disparatada de doces e carnuças... ;)
INDULTO
Contrariando a última moda portuguesa de colocar tudo quanto mexe na cadeia, o Presidente da República resolveu diminuir a pena da enfermeira condenada pela prática de aborto em diversas mulheres. Todas tinham ido até ela pelo seu pé, carregando o peso da sua decisão. Ainda assim, o juiz resolveu a coisa com mão pesada. Enfim, quem dorme na sua cama é ele e, como se sabe, em Portugal, o que o Juiz Decide está decidido. Sic.
A Juventude (????) Popular já veio manifestar o seu repúdio pelo acto presidencial. Em comunicado terá referido a medida como inoportuna, numa altura em que "se reuniu um amplo consenso quanto à necessidade de combater de forma exemplar o flagelo do aborto clandestino". As companhias de aviação com ligações a Londres e Madrid já vieram apoiar esta medida, temendo perder metade da classe executiva para esses destinos operatórios.

24 de dezembro de 2003

NOTÍCIAS URGENTES ENTRE RABANADAS
Fui acordado pela notícia urgente na Antena Um. Em directo do Iraque, no noticiário entrevistava-se um responsável da GNR sobre o horror da não-chegada do bacalhau. Com ar heróico, o graduado respondia que os militares em serviço no Iraque "estavam preparados para enfrentar as adversidades (...) que esta ERA GRAVE, mas que iriam suportar com espírito de missão".
A RTP, também desenvolveu o assunto e ainda nos informou que o BOLO REI também não chegaria aos palatos republicanos.
Perante esta crise, pergunto eu: o que fez o Ministro da Defesa para aligeirar o temível fardo (de bacalhau) a quem se sacrifica assim pela pátria? Responde ele: "Fizemos umas k7 de vídeo com mensagens das famílias. Uma espécie de "Adeus e Até Ao Meu Regresso- REDUX".
Alguém anda a passar muito tempo com ex-combatentes...

23 de dezembro de 2003

FIREPLACE
Os lugares de fogo são frequentemente solitários. Como aqueles que se habitam quando a família parte para dormir e ouvimos as chamas da lareira crepitarem. Nesses instantes somos carregados em braços vermelhos até um tempo primitivo em que só existia o Homem e o seu periclitante destino. Ficamos sozinhos com a evidência das coisas naturais. E é dessa postura desarmante que compreendemos a força combativa que transportamos.
AINDA O TEMPO

O Tiago enviou-me este link sobre a passagem do tempo. Justifica o clique.

22 de dezembro de 2003

ANTES QUE ME ESQUEÇA...

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...Feliz Natal! ;)
MANOBRAS DE DIVERSÃO
As Produções Fictícias apresentam no S. Luis os melhores momentos dos espectáculos "Manobras".
Durante hora e meia rimos com o humor inteligente e o trabalho do encenador (Marco Horácio) e dos actores que temos visto crescer (no caso do Bruno Nogueira, de forma imparável...), diante dos nossos olhos. Os textos reflectem a actualidade portuguesa de uma forma frequentemente certeira e sempre muito divertida. Excelentes momentos como o pastiche ao programa da Ana Sousa Dias (em que os dois actores são brilhantes), os padres cantores ou a rábula da Revista à Portuguesa, justificam a deslocação urgente ao S. Luís. Querendo ou não, aquilo que o Parque Mayer foi, na memória de muitos, em termos de divertimento e crítica, aconteceu ali.
Destaque para as luzes e para o grafismo geral da peça.
Desviem-se os que gostam de sair de uma sala em sofrimento... É que ali até bolas de papel para atirar aos actores se recebe.... ;)

20 de dezembro de 2003

SÁBADO
Corro, montado na burra do Tem-que-ser. No Alforge, os compromissos inadiáveis. Na frente, a região saloia onde criaturas simples comem pão, cebolas e vêem as Tvis.
Atrás de mim, vem um romance, uma história infantil e um filme em que gostaria de pensar....

19 de dezembro de 2003

JÁ É TARDE ESTA NOITE

Vim todo o trajecto, a pé, a pensar que os deuses se divertem a jogar connosco ao Gato e ao Rato sobre um tabuleiro de damas. Julgamos que é xadrez e que nos basta saber que aquilo é uma torre, ali um cavalo e que se movem em diagonal, ou a direito, ou de outra forma qualquer. Cremos ser possível dominar as regras complicadas e vencer. Mas trata-se de um jogo mais simples. E nós temos apenas uma peça para mover.

Esta noite, entre a Estrela e Campo e Ourique cheirava a árvores tropicais. Mesmo se as ruas estavam desertas com vagabundos e polícias como sempre. Havia este aroma. Desconfio que Lisboa foi de viagem até de manhã...

18 de dezembro de 2003

CINEMA NOVO

Estreia amanhã. A materialização do último livro.
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Ouvi dizer que os ortodoxos da Escola de Cinema se iriam acorrentar em frente ao écran. "Não concebemos a emoção aliada ao entendimento do que se vê e ouve", terá dito um docente (que pediu um novo adiamento da reforma). Outro ter-se-á limitado a exclamar: "Ouvimos dizer que há partes em que o público SE RI!!!!". Poderão todos ter começado a gritar: "Morte ao Vasco Santana! Morte ao Vasco Santana!"...
Eu não acredito nesta história, mas enfim...
TEMPUS FUGIT

Enquanto corríamos por ervas daninhas imaginando-as florestas, éramos estes:

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E era por ela que o nosso coração batia...
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Enquanto julgávamos que um dia seríamos ele:

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Resta-nos apenas esta música antiga...

AS DIOPTRIAS DE AFONSO

É impressão minha ou o país está a ficar mais pequeno? Se calhar os portugueses andam com os binóculos ao contrário.
Do tamanho do nosso stressado umbigo, talvez...

16 de dezembro de 2003

MENSAGEM DE NATAL DE SUA EXCELÊNCIA "A gRALHA"

Depois de seleccionar cuidadosamente as pessoas a quem queria enviar uma mensagem de Boas Festas, do meu livro de endereços, teclei-a furiosamente. Para me sair um neologismo interessante "Ortiga". Depreendi que os deuses me tinham feito profeta de uma nova planta... (suspiro) Há dias em que a melhor das vontades...

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ORTIGA (urticariaignorantis)
"UMA BRECHA NA MURALHA DA HIPOCRISIA"
... disse, neste tom vindo de outras eras mais combativas, um dirigente partidário, a propósito da despenalização do aborto. Pode ser que tenha razão.
Há dias li a notícia que um grupo de mulheres, auto-intituladas uma coisa que se me varreu, mas que não era "Mães de Bragança", veio a público sugerir que se "recuasse ainda mais na lei". Argumentavam que quem defendia a despenalização não estava a favor das mulheres. Presumia-se que estavam a favor da libertinagem. Que as putas que tinham engravidado por gozo e falta de cabeça, tinham mais era que aguentar com as consequências. Não se referiam aos casos de violação ou de malformação do feto, mas percebia-se que era para trazer tudo cá para fora. Amado ou não amado. O que interessava era que "estava feito". Enfim, não vou falar sobre isso porque me desperta o lado mais irracional e sou capaz de desatar a ser malcriado e a defender que ir abrir as pernas a Londres por milhares de libras não é diferente de utilizar a mão-de-obra local. Mas dizer isto não seria muito útil.
Digo apenas que das várias mulheres que conheci e que foram forçadas a abortar, todas o fizeram com dor. Física e sobretudo psicológica. Todas carregaram a culpa consigo. Todas prefeririam não ter de o fazer. Mesmo se elas se encontravam em situação economicamente difícil, ou se eram jovens estudantes, ou se o feto que traziam seria filho do homem que as abandonara e que fora a casa para se deitar com elas, antes de partir novamente... Nenhuma o fez por leviandade.
As mulheres no tribunal de Aveiro e os médicos fazem muito bem em não responder. As (poucas) que saírem à rua para gritar a hipocrisia desta lei, também fazem.
Se os arguidos forem condenados que cumpram a pena injusta. Ninguém escolhe o momento histórico em que vive. E este nem sequer é dos mais bárbaros. Dos mais hipócritas, provavelmente.
Mas não nos peçam que nos calemos.

15 de dezembro de 2003

COMPRIMIDOS PARA OS OLHOS DOS PORTUGUESES DESGOSTOSOS

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Tomar uma paisagem portuguesa (sem o som das moto4 dos meninos), após um telejornal.

14 de dezembro de 2003

A CIDADE DAS SETE COLINAS
Como sei que nem toda a minha gente compra o "Expresso", passo a reproduzir este pequeno excerto de uma história que, segundo creio, ali terá sido referida... (Provavelmente, e conhecendo a compência camarária geral, mais do que falsa: falsíssima!)

"Conto, aliás, uma história que ouvi recentemente.
Um cidadão português, que sempre desejou ter uma casa com vista para o
Tejo, descobriu finalmente umas águas-furtadas algures numa das colinas de
Lisboa que cumpria essa condição. No entanto, uma das assoalhadas não tinha
janela.
Falou então com um arquitecto amigo para que ele fizesse o projecto e o
entregasse à câmara de Lisboa, para obter a respectiva autorização para a
obra.
O amigo dissuadiu-o logo: que demoraria bastantes meses ou mesmo anos a
obter uma resposta e que, no final, ela seria negativa. No entanto,
acrescentou, ele resolveria o problema.
Assim, numa sexta-feira ao fim da tarde, uma equipa de pedreiros entrou na
referida casa, abriu a janela, colocou os vidros e pintou a fachada. O
arquitecto tirou então fotos do exterior, onde se via a nova janela e
endereçou um pedido à CML, solicitando que fosse permitido ao proprietário
fechar a dita cuja janela.
Passado alguns meses, a resposta chegou e era avassaladora: invocando um
extenso número de artigos dos mais diversos códigos, os serviços da câmara
davam um rotundo não à pretensão do proprietário de fechar a dita cuja
janela.
E assim, o dono da casa não só ganhou uma janela nova, como ficou com toda
a argumentação jurídica para rebater alguém que, algum dia, se atreva a vir
dizer-lhe que tem de fechar a janela!"
AS INVASÕES BÁRBARAS

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Já não me lembrava do filme anterior, O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO, por isso lá fui um bocadinho a medo (sinceramente, levado pelo prémio de melhor Argumento em Cannes - um filme que tem um bom argumento, e que ISSO SE PERCEBE, dificilmente será apenas um insuportável barrete...).
E gostei muito.
A figura de Remy, o doente terminal que recusa a família e o conforto para mais tarde aceitar o destino e o amor dos seus, é formidável. Mas o melhor será a forma como estes "Amigos de Alex" olham sarcásticos para o seu passado maoísta e empenhado. Divertidísso (num sentido que os apreciadores de Fernando Rocha nunca sonharão...). Ainda há pouco estava a ver o Fernando Rosas, na tv, a falar sobre o Iraque e me lembrei deles :-)
AGARRA QUE É SADDAM
Perdi o discurso do nosso Primeiro sobre a captura do fugitivo iraquiano. Estava marcada para as 17.00h, mas prudentemente, resolveu ouvir primeiro o que dizia o Pai Bush e tudo o que era líder europeu, antes de arriscar uma opinião.
Portugal está mesmo a mudar. Os nossos governantes estão a ficar verdadeiramente prudentes e reflectidos. Sim senhor...!
EQUADOR
Miguel Sousa Tavares deu uma entrevista exemplar ao "Mil Folhas". Pela primeira vez, desde que me lembro, alguém que escreveu um livro de ficção, não se declarou "escritor". Pelo contrário, afirma que o não é. E lá ficamos todos a discutir se terá razão ou não. O seu testemunho foi tão honesto e fiel como o livro. Sem paciência para as "caganças"que caracterizam o discurso geral, limita-se a dizer que tinha uma história para contar e a contou o melhor que foi capaz. Mais: atreve-se a dizer que "não sabe se o seu livro ajudou a literatura. Mas que ajudou, de certeza, a leitura". E isto é indiscutível.
Duvidosamente, Equador ganhará qualquer prémio literário. Não está na editora certa, e vendeu demasiados exemplares. De resto, com a honestidade de alguém que leu as mais de 500 páginas e gostou, não sei se o mereceria. O ano passado, em Barcelona, Agustina disse uma coisa que chocou muita gente: afirmou que em Portugal se tinha inventado uma nova razão para atribuir prémios literários, a Piedade. Isto é, premeia-se aqueles que ninguém quer ler. Ela tem idade e talento suficientes para a acreditarmos.
Sousa Tavares, quando quiser pode escrever neste blog. A sua postura não poderia estar mais próxima da ironia do Prazer Inculto...

13 de dezembro de 2003

APRENDER É MAÇADA

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S.Tomé' 2003


Numa escola que eu conheço, 5 alunos faltaram a um teste. Porque não lhes apeteceu. O que conduziu a um processo de "Recuperação" (não remunerado ao professor). Desses 5, 3 resolveram faltar à "Recuperação". Não estavam em dia de ser recuperados, suponho. O Estado-Providência já lhes preparou mais uma (não remunerada ao professor). Irão se quiserem. Se não quiserem, ainda têm mais 2 hipóteses.
Não remuneradas à igualdade entre os novos do mundo.
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´ P.C.'2003

Quando o chão familiar encolhe debaixo dos nossos pés, é tempo de aterrar.

12 de dezembro de 2003

PAGA!
Como é do conhecimento geral, faço parte do grupo de sardinhas que se empilham diariamente nos transportes públicos em Lisboa. Por isso, estou à-vontade para falar sobre carros.
Santana Lopes entende, e bem, que há muitos carros no centro de Lisboa, que não é como a Quinta da Marinha nem as outras zonas por onde ele se passeará, onde há sempre espaço para um motorista arrumar o carro.
Daí que tenha resolvido atacar o problema por onde ele dói: o bolso dos automobilistas. No que tem razão, segundo penso. A única lei que os portugueses entendem à primeira (logo a seguir ao murro nos dentes) é ter de pagar por qualquer coisa que tinham de borla.
Agora é a circulação na Baixa de Lisboa que passará a ser paga. Não tenho nada a objectar, desde que rede de transportes públicos seja reforçada e os funcionários da Carris trabalhem pelo menos uns 200 dias por ano.
Já me chateia mais a ideia de que a EMEL , a empresa mais burocrática, antipática e disfuncional da cidade (e porventura uma das mais abonadas, sabe-se lá para onde vai o dinheiro) tenha tomado o freio nos dentes e venha exigir aos moradores QUE PAGUEM ESTACIONAMENTO nas suas áreas de residência. Não lhes chega cobrarem fortunas por toda a cidade, como ainda estão decididos a penalizar os milhares de pessoas que não dispõem de garagem nos seus prédios para arrumar os carros ao fim do dia.
Ainda estou para ver que desculpa é que o amigo Pedro vai arranjar para justificar esta cedência aos lóbis camarário-empresariais...
PARIDADE
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Está a chegar a data da entrega da declaração do Irs. O que vale é que as novas medidas da Ministra tornam a coisa justa para todos...

11 de dezembro de 2003

INDEX
Anabela M. Ribeiro, Filipa Melo e Cláudia Galhós estão na equipa do novo "Acontece". Esta noite registaram a última projecção da Zero, no Cine222.
Aguardamos.

10 de dezembro de 2003

SURPRESAS
A dieta moderada que tenho vindo a fazer de televisão e jornais está-me a fazer bem. Ando muito menos "Informado" :-)

Contudo, há uns dias, ao zapar pela pantalla, descubro que ainda existe o Big Brother, que julgava saudavelmente extinto. E o Herman também ainda repete os seus "soquetes"... Os mesmos da minha adolescência. É maravilhosa a ausência de timing de algumas pessoas.
Por este andar desinformado ainda descubro que o Tal Programa cultural da DOIS já começou...!

9 de dezembro de 2003

CINEMA INDEPENDENTE
Pelo que fui lendo na blogosfera, muitos são os que consideram o artigo do Independente sobre o estado do cinema português como "demagógico".
Eu, que vi alguns dos filmes, pareceu-me ser apenas a apresentação de factos.
O outro foi que estive quase sempre sózinho na sala durante as projecções.
O último foi que percebi completamente as razões de quem lá não estava.
Mas estou com aqueles que que querem tapar o sol com a peneira. Boraí todos fingir que só se fazem filmes maravilhosos e que o público (os 10 milhões) é que é estúpido!
HOJE...

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Sobrevivi à estrada molhada, aos condutores loucos e ao nevoeiro que me bloqueava a visão clara das coisas.
E contudo pensei que tinha muita sorte por ter consciência da efemeridade das coisas.

6 de dezembro de 2003

CALVINO

"Assim, temos de recordar-nos de que se nos impressiona a ideia do mundo constituído de átomos sem peso é porque temos experiência do peso das coisas; tal como não poderíamos admirar a leveza da linguagem se não soubéssemos admirar também a linguagem dotada de peso"

(Italo Calvino, in "Seis propostas para o próximo milénio" - A Leveza)
OLD LIGHT GOES HUNTING
Hoje vi o novo livro da Rita Ferro, sobre cromos. No resultado da maravilhosa parceria que tem estabelecido com o seu novo editor N. Matos, varre os portugueses com as suas desencontradas farpas. Vai dos intelectuais até sabe Deus onde... Sempre com a mesma acidez. Um pouco o que a Ana Bola tinha feito com as tias, mas sem a graça.
Contudo, eu, pessoalmente, fiquei contente. Vi-me lateralmente referido :-) Embora sem grande arrojo, admito... Descobri que ainda há gente empenhada cuspir na nome do meu homónimo Possidónio da Silva (1806-1896). Aparentemente, as tias e as velhas carquejas editoriais ainda se lembram de que há cem anos atrás este nome próprio era sinónimo de ingenuidade.
Se tivessem pensado em mim, com certeza que não teriam deixado de referir que por vezes pode ser sinónimo de honestidade e de lealdade aos valores humanísticos.
Ai espera... Mas isso não ajuda a fazer bestsellers, pois não...?!

4 de dezembro de 2003

GREVES
Estou atrasado para a greve da Carris. Na prática, o tempo que vou esperar por um transporte alternativo é o mesmo que espero por um autocarro regular (que deveria passar de 15 em 15 minutos).
Obrigado aos habitantes de Matosinhos, Angra do Heroísmo, Évora, Braga, Vila Real, Quarteira e todos os outros que com os seus impostos estão a pagar os custos desta iniciativa de defesa dos direitos de trabalhadores (uma forma de dizer) de Lisboa.

E por falar em greves, alguns trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos, foram hoje trabalhar "envergando uma peça de roupa preta". Protestam contra a perda de regalias (seria interessante publicar aqui a listagem das regalias de um trabalhador da CGD para se perceber do que estamos a falar).
No Estabelecimento Prisional de Lisboa parece que lhes vão seguir o exemplo por causa da pouca diversidade de canais por cabo. Amanhã muitos irão almoçar envergando uma peça de roupa interior rosa. Ou azul-bebé, conforme...
GOVERNA QUEM SABE
O nosso clown, Alberto João, bateu o pé, para variar, a propósito da eterna dívida da Madeira. Terá certamente ameaçado com o que seria uma benção para todos nós, incluindo os nossos conterrâneos do arquipélago: não se recandidatar. Era mentira, claro, um palhaço morre sempre de forma patética debaixo das luzes da pista. Mas, a contrariada Manuela F. Leite, lá deve ter tido de ceder aos pedidos do - por assim dizer - líder do governo e vá de lhe perdoar tudo, fazer batota com as regras de contenção do endividamento. E ainda lhe arranjou mais uns trocos com que ele irá esfregar na cara do povo local como "tomem lá que EU vos dou mais isto".
Isto só vem provar que não existem em Portugal políticos de confiança. Quando a perda de votos ameaça dão o cu e cinco tostões para não perderem o poleiro.
Ora, ganhem vergonha na cara!

3 de dezembro de 2003

LAVAR MAIS BRANCO QUE O BRANCO
Desconfie-se do homem ou mulher que bata no peito e fale da Inocência como o único valor. A coisa perdida que urge recuperar. Algures na sua vida o lixo já lhe entrou sorrateiro por debaixo da porta fechada...

2 de dezembro de 2003

JUNTAR IDEIAS AFASTAR O LIXO
Regresso de um bocado muito agradável, passado com um Clube de Leitura de Lisboa. Reúnem-se uma vez por mês, para falar de um livro que quase todas as pessoas acabaram de ler, colocam perguntas ao autor convidado e dizem de sua justiça sobre a obra em apreciação e muitas outras coisas. No fim, janta-se e descobrem-se as pessoas.
É simples, é barato e Deus sabe que fica nos antípodas da solidão que a televisão impõe. Se cada uma das pessoas que está a ler este post falasse com outras e organizasse um encontro deste género (à volta de um livro, de um filme ou de outra coisa qualquer) Portugal poderia a ser diferente. :)
"ELVIS" REGINA
Aqui fica um excerto de uma das minhas canções favoritas:
"(...) Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao
Vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as
aparências não se enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém..."
(in "Como os Nossos Pais", de Belchior)

1 de dezembro de 2003

MUDAM-SE OS TEMPOS...
Enquanto lia uns textos sobre o nosso conturbado século XIX, cheguei à conclusão que muitos historiadores lembram os anos à volta de 1836 como épocas em que "uma minoria composta de ministros, marechais e generais do exército, altos magistrados e chefes de repartições" consumiam a maior parte (frequentemente em "advance"...) dos recursos do Estado. Ao resto da maralha - excluindo a imensa maioria que arrancava da terra as couves e as batatas - restava o mendigar dos magros soldos.
Fico muito contente que 167 anos depois as coisas se tenham alterado RADICALMENTE.